Sinto-me como o cheiro do ralo. O indicador de que algo vai mal. O expoente da fragilidade da vida de concreto. O mofo na rachadura das paredes e vidas. O sinal de que tudo o que há há de acabar.
A representação da dualidade: bem/mal, certo/errado, cedo/tarde, claro/escuro, amor/ódio, sobriedade/loucura. Tudo se contorce em mim e interage, se completa, se mistura, se estraga, racha e cai na calçada ao lado de outros mendigos.
Me esparramo no chão como o sangue que outrora ocupava este mesmo lugar, mas já secou, evaporou, sumiu. Assim como farei em breve. Se o ta,l falado e nunca visto, 'deus' for generoso. Se não for ao menos há a certeza que, mais cedo ou mais tarde, este grande encanamento chamado mundo há de explodir e esparramar a merda toda pelo universo. Espero que seja mais cedo. Pela fome e pela sede creio que não terei força pra viver muitos amanhãs. E quero como último desejo ver tudo, inclusive meus olhos, explodir, desintegrar, rodopiar pelo espaço como a mísera poeira que somos.
E minha últimas palavras serão: uma moedinha, por favor. Apenas pelo costume. Apenas.